quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

AOS AMIGOS E AMIGAS...

MENSAGEM PARA UM TEMPO QUE DÁ PASSAGEM A OUTRO...
Poderia pensar uma mensagem universal, daquelas que parecem tocar ao coração, mas de uma forma abstrata. O abstrato nem sempre é acessível e como prefiro tocar ao coração com simplicidade, pensei em palavras que se aconchegassem na alma de maneira bem particular.
Do meu lado uma taça de vinho branco. Viva! Tim! Tim! Vinhos sempre fizeram parte de instantes preciosos. É comemorativo! Nada mais adequado, ainda que eu deseje que estas palavras que se lançam de uma forma livre, se alinhem aos sentimentos de quem, em 2007, experimentou o sentimento de perda. Esta particularidade lança à distância a abstração que não invade a alma.
Perder-se também é encontrar-se! Me delicio com esta constatação! Poetas e Amantes da Poesia assim o sentem e sempre com uma intensidade exposta. Na perda reside a possibilidade de encontrar. E não foram poucos os instantes de busca daquele objeto de prazer...
A Alma de quem perde é visitada por uma tristeza profunda. Mas tristeza é inspiração desmedida! Como assim sentiu o Poeta Vinícius de Moraes que de-li-ci-o-sa-men-te escreveu e cantou que “Pra fazer uma samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, se não, não se faz um samba não...”. Invadido por tão expressivo sentimento, pode-se lançar-se a ele como um compositor apaixonado que se embriaga, perseguindo a beleza e, assim, a intensidade da perda guarda uma aprendizagem grandiosa.
Eu sei, meu/minha afetuoso/afetuosa leitor, da lama que se apossa nas veias de quem a tristeza o visitou, seja pela perda de um emprego, pela perda de um amigo, parente ou a de um grande amor (esta, a qual elejo a maior de todas!). Frei Beto, ao falar de esperanças, nos alertou sobre a possibilidade de frustração ao semeá-las, pois esperanças “são grãos miúdos, delicados, quase invisíveis, ora plantados no caminho acidentado, ora num coração angustiado.... E depois vem o árduo trabalho de regar todos os dias, ver emergir o primeiro broto, um fiasco de verde aflorando sobre a terra negra, e a gente é tomado por esse sentimento feminino do querer cuidar e começa então a acreditar que a primavera existe.”
Em dois mil e nove, que tal semear esperanças regando-a carinhosamente? Vamos escrever poesias inspiradas pela tristeza pra tornar belo o sentimento da perda? E por que não, expressar o mais intenso EU TE AMO!! à pessoa amada? Vamos fazer um samba com beleza? Vamos sonhar, como quem guarda da possibilidade de ilusão a mais clara e verdadeira lição de esperança? Ta combinado!

Eu amo o sentimento de quem assim descreveu o sonho...”Um sonho se tece de mil fios delicados, até que um dia a imagem se transporta da mente à realidade. Talvez não se saiba aonde exatamente se pretende chegar. É como no amor, os sentimentos criam vínculos sem que se saiba ou se possa adivinhar o porvir...”

Uma perda adiou a expressão destas palavras...mas elas, finalmente, visitaram minha alma... e eu as compartilho com aqueles que se encontram.. perdendo -se.

Um Cheiro carinhoso
Gilson Reis

terça-feira, 23 de dezembro de 2008




NOSSA MENSAGEM DE NATAL E ANO NOVO!

“Eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que ardem...!”.

A experiência de SOLIDARIEDADE é muito significativa na medida em que se constitui uma via de aprendizagem recíproca, engrandecendo aquele que busca ver nos olhos do outro o brilho dos sonhos e aquele cujos olhos brilham, as vezes em estado de escuridão. O sentimento do olhar que busca brilho é de uma grandeza indescritível.
Há um aspecto fundamental quando se pretende tornar um sonho em realidade, trata-se da identificação com a AÇÃO SOLIDÁRIA que se pretende ver acontecer, e tanto mais identificado com o sonho, maior é a possibilidade do mesmo pulsar e fazer parte da vida/veia concreta de quem sonha.
É de uma beleza cativante a construção coletiva do sonho que dá sentido as idéias e um caráter de comunhão de sentimentos nobres, impulsionadores de uma fertilidade saudável, propondo, não o alem e o aquém de nossas experiências, mas a própria extensão do que sentimos na pele e na respiração, desencadeando uma festa de valores. Então se trata de uma experiência de resiliência, esta capacidade humana de superação e reformulação do estabelecido.
Evidentemente, as sementes que desse coletivo saem podem encontrar terrenos pedregosos, porem, é urgente e profícuo trabalhar com sentimentos do vir a ser, encontrando-se, assim, num amanhã, quiçá, breve, com as possibilidades de campos plenos de terra boa!
Após este período de apropriação (ou não) do tempo que até então já se estende, podemos nos perguntar: quais as maiores qualidades dos sonhos que neste tempo almejamos... e o que conquistamos?... não em seu sentido de individualidade, o que seria infinitamente contraditório numa experiência grandiosa de comunhão, mas em seu sentido de satisfação enquanto ser humano lutando pela grandeza do outro.
Como disse Adriana Calcanhoto: “Eu gosto dos que tem fome, dos que morrem de vontade, dos que ardem...!”. E tão somente, Seres Humanos inundados de sentimentos nobres, contagiarão os campos de terras férteis, participando, desta maneira, da gestação de seres com uma grandeza incontestável de coração.

Feliz Natal e Excelente 2009!!
Sarau Pegando o Gancho

domingo, 14 de dezembro de 2008

CONFRATERNIZAÇÃO DE NATAL!

74º SARAU
PEGANDO O GANCHO
Compartilhando 2008 e Sonhando, juntos, um feliz 2009!

O Sarau Pegando o Gancho é colo de sentimentos nobres, nele, deitam-se amantes alforriados, de lágrimas desequilibradas! É instante de instantes eternos, nele, as taças de vinho são sangues vivificadores! É abandono descompromissado onde as águas dos rios deslizam sem trilhas definidas, parindo caminhos novos! É cegueira sã, onde a escuridão tem cores! É ventre gestante, fértil! Fértil!
Feliz Natal! E um poético 2009!

Na casa do Gilson, Mauro e Marcelo
dia 20 de dezembro a partir das 20h.
Av. Angelina 577 casa 3. Vila Guilherme
Contatos: 3938 7289 – 8258 2772

Para celebrar, leve poesia, violão, vinho ou salgados, mas principalmente,
o sentimento presente.

domingo, 7 de dezembro de 2008


Caros Amantes da Beleza
Segue um texto do Reinildo que faz a interpletação
da Música Travessia do Milton Nacimento
Valeu Reinildo!!


REFLEXÃO DA MÚSICA TRAVESSIA DE MILTON NASCIMENTO SOB A LUZ DE W. D.WINNICOTT
por Reinildo de Souza
Dezembro/2008
O Tema melancolia é explorado por várias áreas do conhecimento humano, mas é nas artes onde mais concretamente percebemos esse movimento e que Milton Nascimento descreve com tanta sensibilidade. Para não permanecermos apenas na teoria, embora ela seja importante, é que pensamos na letra dessa música e dela faremos algumas reflexões.
A música inicia-se num momento de despedida, parece que alguém muito amado de certa forma desapareceu. Morte? Separação? Não daria para saber, mas sentimos com clareza que alguém partiu e deixou o outro sozinho, sobrou então um grande vazio: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver”. Neste momento, parece que se instala um clima de introspecção para o personagem, como se ficasse a beira de uma paisagem olhando o infinito sem ver nada. O autor nos passa a sensação de que tudo terminou. A vida parece que perdeu seu significado, aquilo que dava sabor e alegria ao personagem.
O personagem conhece que tem forças para lidar com essa situação, todavia elas não lhe são suficientes para conter suas emoções: “Forte eu sou, mas não tem jeito. Hoje tenho que chorar”. Ele se deixa levar pela melancolia que está sentindo, não cria defesas para isso, causa a impressão de que vai entrando num clima de luto e sofrimento.
Neste momento inicial, não fica claro se ele se questiona sobre as causas de todo esse desconforto, ele simplesmente vai vivendo as emoções conforme elas vão aparecendo. Ao passo que esse processo vai se instalando, o personagem se vê sem nada e sente-se perdido “Minha casa não é minha e nem é meu esse lugar”. Passa a nítida impressão de que vai entrando em processo de luto, que tem que se despedir de suas próprias coisas, do lugar onde está quase como uma pessoa perdida onde tudo é desconhecido e se sente sem referências.
Do ponto de vista de Winnicott, esse processo inicial é um bom indicador, na medida em que futuramente vai mostrar a força de seu EGO, o personagem tende a se encontrar. Para Winnicott esse é o valor do EGO, acercar-se de dar um valor a essa melancolia que vem sentindo e que está envolvido. O personagem mostra-se maduro, assume embora inconsciente, os riscos do sofrimento. Esse momento é visto por Winnicott como “aquisição do crescimento individual”, que decorreu no seu processo de desenvolvimento desde a primeira infância e o que dá base para elaboração de conflitos futuros.
No momento auge do seu estado, ele diz: “Estou só e não resisto, muito tenho pra falar”. O personagem permite ser tomado com toda força por seus sentimentos melancólicos e quer contar o que aconteceu, falar sobre suas dores. Esta é a solidão de um melancólico, ele vai cultivando esse sentimento até o ponto, como nosso personagem, não resiste e procura falar. Será que existe alguém para quem ele possa falar? O sentimento de estar só é muito forte, ele demonstra que ainda há esperança pra que tudo se resolva. O falar ajuda o personagem assumir ainda mais esse processo. Quando falamos o que sentimos, de certa forma assumimos o que falamos pra nós mesmo e para os outros, neste sentido não são apenas palavras ao vento, são expressões carregadas com os sentimentos do interlocutor. Assim é nosso personagem, ele faz um movimento de quem quer sair da situação, dá um grito pedindo ajuda - “tenho muito pra falar”, basta que tenha alguém que consiga ou – de conta – de ouvi-lo. Winnicott entende isso como uma indicação de que a estrutura do EGO suportou uma fase tão cheia de crise e um grande passo a ser dado para a integração do EGO, começa, dentro de uma possibilidade de resignificação, um movimento de reavaliação de sua crise.
O nosso personagem continua com seu grito, agora de outra forma: “solto a voz nas estradas, já não quero parar”, está determinado a continuar com esse pedido de ajuda com certa dose de enfrentamento. Podemos pensar que para Winnicott, o nosso personagem ainda não está com seu EGO rompido e isso é percebido através do humor que ele apresenta nesse momento, por isso ele pode manter uma estrutura como um baluarte. Está envolto de muitos sentimentos, sente que, (seu) “meu caminho é de pedra”, o que significa uma compreensão que sua vida emocionalmente está difícil, uma estrada repleta de buracos e curva fechada, onde não se pode ver o que há do outro lado. Portanto, é fazendo a curva que vai se descobrindo, se deparando e encontrando algo que ainda não se sabe o que é, mas de certa forma já se é esperado porque existe um significado implícito nesse momento depressivo, numa história onde se encontra amor e ódio (o que sempre está implícito nas depressões segundo Winnicott), ambos trancafiados em algum lugar onde nem mesmo o nosso interlocutor sabe onde está. Seria, pois, o inconsciente?
Enredado nesse processo, como o personagem poderá sonhar com algo considerando sua própria história? Por isso ele se pergunta: “como posso sonhar”. Fecham-se as possibilidades e nada mais tem sentido. Se antes seu EGO apresentava certa força, neste momento ele está enfraquecido. Para Winnicott o sonho também indica a força do EGO. Logo, não podendo sonhar, onde e como ele poderá encontrar essa força? O percurso que irá fazer vai aos poucos mostrando o caminho para encontrá-lo. Essa parece uma oscilação experimentada pelas pessoas que enfrentam esses estados.
Nosso personagem encontra-se numa alameda escura e sem saída, pois se refere aos seus sonhos como: “sonhos feitos de brisa, ventos vem terminar”. Curiosamente o vazio se instala numa experiência aparentemente destrutiva, o personagem forma uma idéia que sugere uma descontinuidade, tudo acabou! “vou fechar o meu pranto, vou querer me matar”. É um momento de grande angústia sentida pelas pessoas que passam por tudo isso. Por outro lado, podemos pensar no sonho de nosso personagem como algo que não tenha muita consistência, parece tão frágil que qualquer brisa pode levá-lo, e então, ele decide que não quer mais sonhar por receio de que tudo poderá se desfazer novamente.
Para Winnicott, as oscilações de uma depressão, quando ela se apresenta com mais ou menos intensidade, significa que o EGO passou pela crise e não se rompeu. Nosso personagem decide, então: “Vou seguindo pela vida me esquecendo de você”, ele num súbto se alavanca, cresce, amplia a percepção de seu estado, é um primeiro sinal do processo de elaboração. Decide não mais pensar, nem sentir as coisas passadas, como se fosse possível, mas torna-se real quando os sintomas não mais o atacam. Ele de tanto falar já recordou, já esteve onde seu sofrimento foi mais intenso e por isso inicia um caminho contrário – da libertação. Quando nosso personagem refere que vai esquecer do objeto perdido, ele vem demonstrar sutilmente que esta aberta às novas experiências, mesmo não sabendo no que vai dar.
Essas últimas linhas da música “Eu não quero mais a morte, tenho muito que viver. Vou querer amar de novo e se não der não vou sofrer”, desenvolve-se indicando a saída que ele arrumou para escapar da depressão e quanto a isso, Winnicott refere que a pessoa que passa pelo processo pode, então, sair bem mais fortalecida, pois vivenciou história que a faz sentir-se mais forte, ainda mais do que antes, desde que ela se sinta liberta. O EGO está novamente integrado e o nosso personagem mais amadurecido. Ele demonstra o quanto foi positiva a experiência depressiva
Tudo passou como uma tempestade, foi como uma TRAVESSIA, assim como sugeri o nome da música, que o personagem teve que executar, agora ele pode contar com o seu próprio braço para seguir sua vida e como diz Carlos Drummond de Andrade: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”.